Há quatro anos, uma certeza martelava na minha mente e no meu coração: eu precisava de uma mudança profissional. Há mais de uma década, minhas oportunidades me levaram para a área comercial. E por mais que eu seja imensamente grata por todos os aprendizados e caminhos que se abriram, a verdade é que eu estava infeliz.
E quando digo infeliz, não me refiro apenas àquele cansaço rotineiro de ir para o trabalho. A insatisfação era profunda. Eu carregava o peso de um diagnóstico de Burnout e uma mente inundada por um milhão de dúvidas sobre o que fazer.
Mesmo com a certeza de que precisava mudar, e sem a menor ideia de por onde começar, iniciei um processo de dois anos. Minha busca era por uma nova oportunidade, sim, mas o objetivo real era descobrir: o problema era o lugar onde eu estava, ou eu simplesmente não queria mais a área comercial?

Eu precisava continuar trabalhando, afinal, boletos e outras contas não esperam. E foi assim, entre a rotina exaustiva e a busca incessante, que a frustração virou minha companhia mais frequente. A cada “não” de um processo seletivo, um pedaço da minha esperança se desfazia.
Cheguei a contabilizar, até onde minha paciência permitiu, a quantidade de entrevistas e testes: foram cerca de 350 processos seletivos ao longo desses dois anos. Cada um deles, uma nova chance de descobrir se o problema era a área, ou apenas o lugar.
Até que, um dia, o meu famigerado “sim” finalmente chegou, via LinkedIn.
Quando o “sim” finalmente chegou, junto com ele veio um alívio absurdo. Medo também? Sim, ele estava ali, mas eu estava tão sufocada e esgotada que o coitado foi jogado para escanteio diante das possibilidades que eu imaginava.
A vaga, de fato, era para a área comercial novamente. Mas para mim, era um universo completamente novo. Empresa, processos, clientes, produto, absolutamente tudo era oposto ao que eu tinha vivenciado nos meus últimos trabalhos. E essa diferença me encheu de um ânimo renovado. Eu me senti extremamente animada e orgulhosa da conquista.

Confesso que, no início, tudo o que vivenciei nessa nova fase me fez enxergar uma imensidão de possibilidades que antes sequer passavam pela minha cabeça. Novas pessoas, novas formas de fazer negócios, novas aprendizados, novas responsabilidades… E, acima de tudo, a certeza de que antes eu vivia em uma bolha profissional tóxica.
Eu nunca fui de viver em um mundo de conto de fadas, e cresci sabendo que nada é perfeito. Não coloco esse peso em nada, nem em ninguém, e não seria diferente com esse trabalho. Apesar dos incômodos que vivenciei, entendi ainda mais que a perfeição não é o objetivo. Na verdade, depende muito mais de mim saber lidar com o novo, com aquilo que eu não esperava, e conseguir tirar o melhor de cada momento.
Foi com essa nova mentalidade de lidar com o inesperado e extrair o melhor de cada momento, que após apenas seis meses na empresa nova, fiz uma escolha decisiva: pedi demissão para embarcar na aventura de um intercâmbio.
O sonho de uma vivência internacional me acompanhava desde a faculdade. Mas, como acontece com a vida adulta, a gente acaba mudando os sonhos de lugar, ou os deixando adormecidos. No meu caso, com a oportunidade diante de mim, eu a abracei.
Foram os primeiros três meses para sentir o lugar, para me ambientar. Depois, quatro meses de volta ao Brasil, em um breve retorno. E agora, já se passaram dois anos desde que deixei minha cidade, Salvador, para viver essa nova fase.
Olhando para trás, consigo ver claramente que o meu desconforto já estava presente há muito tempo. Eu já buscava sair da minha zona de conforto de várias formas, mesmo sem nomear isso. E agora, morando fora do país, eu vivo literalmente todos os dias sem a famosa zona de conforto.

E sim, alguns dias são muitíssimo difíceis de lidar. São cansativos e a mente parece que trava. Mas, ao mesmo tempo, foi nesse contexto que consegui ressignificar minha relação com o trabalho. Trabalhando como barista e como cleaner, portas de entrada para muitos imigrantes como eu, consegui sentir a leveza de terminar o meu horário de trabalho e ir para casa em paz. Sem precisar me preocupar com mil coisas, sem medo de acordar, sem medo do telefone tocar, sem medo de cometer erros. E como aprendi desde cedo, minha paz não tem preço.
Até hoje, não tenho certeza se consigo responder àquela pergunta inicial: se a área comercial é para mim ou não. Mas carrego uma certeza inabalável: trabalhar com atendimento, na linha de frente, molda de forma incrivelmente positiva a maneira como me relaciono com as pessoas ao meu redor. Não há curso, livro ou teoria que ensine mais do que a vivência na prática.
E você, já viveu uma jornada parecida? Como foi para você sair da zona de conforto e encontrar um novo significado no trabalho ou na vida?

Ainda estou no meio do caminho. Aqui compartilho o que estou aprendendo enquanto tento construir uma nova vida, uma nova rotina e uma nova eu.


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